Autoestima Lifestyle Relacionamento

Como é viver com TPB

jbajbsjab.jpg

Queria explicar como é viver com uma doença mental comum, mas pouco compreendida: o transtorno de personalidade borderline (ou transtorno de personalidade limítrofe), o TPB.

Entre 1 e 2% dos adultos sofrem de TPB. Mulheres têm três vezes mais chance de ter a doença que os homens. Eu sou uma mulher que tem TPB. A doença geralmente está ligada a (ou é diagnosticada equivocadamente como) outras doenças mentais, o que significa que pode se perder em outras discussões maiores. A doença pode se misturar com depressão, ansiedade e transtorno bipolar. Pode ser genética, ou resultado de um trauma. Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, ou nenhuma delas.

É difícil oferecer uma definição médica simples de TPB, mas já ouvi isso ser resumido muito bem como uma “irracionalidade crônica”. Pense em mudanças de humor súbitas, impulsividade, instabilidade e um bom punhado de raiva explosiva.

Pense em saber que você tem TPB e ouvir sua doença ser resumida a TPM ou a falta de educação. Pense em ser julgada pelo seu mau humor e sua “cara feia”.

Imagine ser acometida por uma raiva exorbitante no meio da noite ou uma tristeza profunda enquanto todos ao redor estão rindo. Imagine sentir uma alegria inexplicável e no segundo seguinte se sentir vazia. As mudanças de humor são os meus maiores desafios. Tenho dias bons e ruins, ou os dois em questões de segundos.

Confesso que as vezes imagino que estou flutuando sobre uma mesa de jantar, acima das conversas e risadas, olhando para as pessoas sorridentes que entendem umas às outras e pensando: “Por que não eu?

Isso me coloca em espirais de dúvida e raiva. O transtorno me faz sentir como uma mola maluca embaraçada, eternamente despencando por uma escada. Eu sei que algo dentro de mim está errado, e mesmo quando me dizem isso, fico imaginando o porquê. Por que comigo? Acho que essa é a questão. Ainda não sei a origem, o gatilho pra o TPB existir na minha vida. Só sei que está aqui e é assustador.

Há sempre essa sensação sufocante de isolamento. Eu digo “sensação” porque posso estar cercada pelos amigos mais simpáticos, e ainda sentir que eles estão tramando alguma ou zombando de mim pelas costas. Posso receber muito amor da minha família e ainda assim não sentir absolutamente nada. A tragédia do TPB é que ele funciona com tal solipsismo que me inverte como pessoa. Vou do narcisismo tóxico ao ódio de mim mesma, até o ponto onde projeto irracionalmente minhas inseguranças emocionais naqueles ao meu redor.

Nem preciso dizer que é difícil manter relacionamentos. A combinação de não sentir absolutamente nada e ainda se encolher de tudo não é muito divertida. O TPB me faz atacar, permitindo que as coisas mais cruéis escapem da minha boca. E acredite em mim, o número de vezes em que pessoas queridas vão desculpar uma falta de controle é limitada. Eu vejo o balançar de cabeças e os olhares atravessados das pessoas do meu convívio, eu compreendo que eles não compreendem.

As pessoas muitas vezes discutem o TPB como um “vazio”. Para mim, é mais uma oscilação entre o vazio insuportável e o cheio insuportável. Penso na piscina de uma casa vizinha a minha no inverno, só um quadrado vazio com azulejos empoeirados. Imagine estar no meio da piscina e, de repente, ela se encher. Num instante, você está se afogando. As pessoas descrevem o TPB assim: um interruptor. Um grande interruptor que desliga num instante invisível.

Acho que é essa oscilação errática que torna o TPB tão difícil de comunicar — particularmente para alguém próximo de você. Na superfície parece que só estou sendo uma grande babaca. Uma eterna adolescente rebelde e sem modos. Como todas as doenças mentais, ela é melhor tratada com paciência e empatia. E infelizmente, como a depressão e a hipomania, ela coloca o ônus sobre pessoas que não estão necessariamente em posição para ajudar ou entender, não importa quanto elas se preocupem com você. Em um relacionamento, o TPB pode fazer os dois lados se sentirem isolados.

A doença traz meu lado mau para um ponto chocante. Sempre tive jeito com as palavras, principalmente com as más, e o TPB é como a visão do Exterminador do Futuro que destaca as falhas nas armaduras de todo mundo. Eu aponto o dedo como se fosse uma arma. Diferente da minha mania, que tende a me fazer parecer carismática e eloquente, principalmente no trabalho que é onde eu mais me esforço para “parecer normal”, um “momento” TPB me transforma em alguém amarga e cruel.

Lembro que uma vez sacudi uma faca de manteiga para os meus amigos no apartamento de uma menina da faculdade bem na mesa de jantar porque eles estavam lamentando o governo Dilma. Eles ficaram olhando para mim de boca aberta, em choque, então me levantei e os mandei “para o inferno”. Não é uma coisa que uma pessoa média dispararia numa conversa às seis da tarde para colegas.

Claro, a explosão não me deu nenhuma sensação de alívio. Ela se transformou num monólogo interno em loop de recriminação pessoal e ódio por mim mesma. Toda decisão é punida retroativamente. Eu me isolo, me machuco, repito a cena um milhão de vezes na minha cabeça. Os olhares, as reações, as pessoas que eu perdi e as pessoas que vão inevitavelmente embora da minha vida. Às vezes, nos dias ruins, desejo não existir.

É uma doença de miragem. Você se sente como alguém sem impressões digitais. Alguém sem identidade. Você está constantemente se movendo entre coisas, pessoas e paixões. De fora você pode parecer ousadamente transformadora. Na verdade, você é alguém sem um senso de “eu”. Às vezes parece com uma cobra trocando uma pele infinita.

Se eu me apaixono, acabo por me tornar alguém apaixonada pelas paixões do meu objeto de afeto. Me torno perigosamente alguém obcecada por agradar, o meu maior medo é ficar sozinha. O meu maior medo é a rejeição. É engraçado até, a minha doença só me isola. É uma hamartia.

O TPB é pouco comentado. O estigma cercando a doença é pernicioso. Alguns acusam quem sofre do transtorno de usar isso como muleta ou desculpa para comportamento impulsivo, o que só nos empurra ainda mais para um poço de isolamento que piora os sintomas e a dor. Conversas podem dissipar muito da mágoa, mas é difícil encontrar quem pare pra ouvir. As pessoas geralmente acreditam que você está buscando desculpas esfarrapadas para os seus erros. O que elas não entendem é que o TPB não é meu refúgio e sim o meu maior tormento desde a pré-adolescência.

Felizmente, o TPB pode ser tratado com terapia, conscientização e apoio. Não tem cura, mas não precisa ser um colega para a vida inteira como a depressão e a ansiedade. O fantasma pode ser expulso, pode se tornar só uma sombra. Mas como com todas as doenças mentais, isso exige amor, de amigos, estranhos e de você mesmo.

A pior coisa no TPB é que ele torna difícil encontrar esse amor.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s